Processo Criativo: Palindrômica

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Olá!

Voltei com o tema de Processo Criativo das Artistas que admiro. Tirei uma folga desses posts porque analisar cada é complexo, além de que deixei meio em off para não enjoar né? Para quem tá perdido, o último post desta saga foi sobre a Bruna Karnauchovas.

O post de hoje é sobre a Ana Júlia, autora do Palindrômica, da qual possui uma história muito legal por trás.. Eu gostei muito de entender mais e poder encaixar toda sua poética na sua arte. ♥

♥ Apresento aqui a Palindrômica: Ana Júlia. ♥

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  • Analisando seus trabalhos, vejo que gosta de experimentar várias técnicas e materiais. A questão de experimentar é algo completamente intuitivo? Essa vontade vem de onde?

Experimentar os materiais é um conhecimento de mundo e aproveitamento dele! Encontrar o seu próprio sentido dentro das possibilidades da matéria é talvez intuitivo pra todos nós, porém nem sempre consciente. Um exemplo disso é comer algo bem colorido, como beterraba, que suja o prato todo e de repente depois da refeição começar a rabiscar com garfo ou mexer naquela cor. Claro que essas coisas são mais comuns quando ainda somos crianças, mas o ponto é que a gente sempre tá experimentando, mesmo só com as possibilidades mentais. Por isso acho bacana dar a cara a tapa e tentar usar de tudo no mundo e achar nossos próprios sentidos dentro dele.

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  • Você faz várias mulheres e alguns poucos homens. Porém há um homem e sempre envolto da história (ou citações) sobre um sentimento dolorido… Em sua vida, houve algum tipo de desilusão em que houve grande apego e que ilustrar se torna seu ponto de escape?

Não sei se sempre há um homem envolvido. Particularmente eu adoro trabalhar com a desilusão sim! Pra mim, pelo menos hoje em dia, é uma espécie de processo antropofágico, em que ‘engulo’ o que me enviam (com o projeto das Desilusões Amorosas) e ‘vomito’, fazendo um trabalho a partir disso; como ultimamente tenho feito com as pinturas da minha personagem Desilusão – que assume diferentes facetas, mas com características próprias (o nariz de palhaço, e a nuvem dos cabelos por exemplo) e que acompanham títulos enormes, que são quase poemas!

Acredito que desilusão é algo que todo mundo tem e se não tem, terá! Claro que sofri diversas ao longo da vida, inclusive algumas mais sérias. Já vivi relacionamento abusivo e ilusões sinistras (como descobrir o nome verdadeiro da pessoa depois de 7 meses, ou ter uma secreta namorada no bolso). O tema é para mim extremamente intrigante, tentar entender o que nos faz iludir, ludibriar ou ser iludido e ludibriado é algo que estou em constante procura, além de que creio a desilusão amorosa como doença não reconhecida, que tem seus próprios sintomas físicos e psicológicos! Quem já passou ou passa por isso tem uma empatia muito maior com quem tá sofrendo e é por isso que é tão importante pra mim, porque eu tenho muita empatia com quem tá desiludido e quero muito entender mais esse processo de cair em si e de questionamentos. O ‘Escape’ que você se referiu, pra mim vem de quem me envia, de quem tenta fazer uma síntese de tudo o que aconteceu e de quem quer ser ouvido, quer ter sua dor notada e talvez veja um encaixe no que eu produzo a cerca disso tudo, numa citação de Jodorowsky, “o único jeito de acertar qualquer coisa é com um poema”.

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  • Boa parte de suas meninas estão nuas e/ou pairando/dormentes no ar, em posição fetal, sempre com o pescoço esticado olhando para o alto, como se estivessem alongando e relaxando das situações pesadas da vida. O que isso passa para você?

Que bacana você ter notado isto do alongamento e relaxamento e da posição fetal, isto começou a vir mais à tona com o ioga e o meu entendimento do mundo após. A posição fetal, que adaptei no desenho é por exemplo de recolhimento, conhecida por ‘balasana’; Um recolhimento de si pra si, como retornar para casa, reconhecer a morada dentro de si. Assim como a desilusão, algo que cresce para dentro! O relaxamento, olhar para cima e os olhos fechados é um reforço disso, do sujeito que tá no mundo e dentro do seu próprio mundo. O cinema é uma grande influência disso também, as imagens tem sua própria lógica e perspectiva estando em suspensão.

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  • O que cada material que usa, representa para você dentro de seu processo criativo?

Ultimamente tenho usado os restos de madeira que acho pelas ruas. Costumava fazer isso com a minha prima, quando éramos mais novas, pegávamos os restos das madeiras que meu pai e meus tios produziam do trabalho feito na marcenaria e fazíamos diversos objetos com isso! Criávamos nossas próprias mesinhas de boneca, além de tingi-las esfregando flores coloridas! Essa política de pegar os restos sempre fez sentido pra mim, ainda mais agora que encaixa muito bem com a minha produção, já que pego ‘do lixo’ o que não é mais desejado. Além de que tenho que me adaptar aos diferentes tipos de madeira que encontro e do uso da colagem, numa ilusão de existência de que é tudo pintura em madeira. E claro, a aguada que é algo incontrolável e que é sempre divertidíssima e inovadora pra mim, o que planejo nunca é a arte final, justamente pelo poder entrópico que a aquarela tem.

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  • Boa parte de suas artes possuem uma mini citação que complementa ou transmite a ‘resposta’ para a arte. Você possui escritores que usam desta técnica? Qual sua relação com a escrita?

Como comecei a dizer anteriormente, as ‘mini-citações’ na verdade são os títulos quase poemas! Os títulos grandes com trocadilhos, metáforas e ironias são a forma que encontro de ser mais incisiva. A imagem pode ser forte, mas a escrita direciona, ainda que subjetiva. Eles aparecem depois, numa reflexão minha com a imagem. Raramente é de fato algo que saiu puramente de mim, a parte escrita é a parte mais colaborativa do processo, é um reflexo do que recebo do mundo e do que posso enviar. Tento fazer isso de uma forma mais leve e engraçada, tentando tornar um tormento, algo muito interno, em algo mais concreto e ao mesmo tempo sutil. Gosto muito da escrita e da possibilidade que ela oferece! O Rubem Fonseca e os Melôs musicais de dor de cotovelo são as minha referências mor!

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  • Palindromia significa “recaída de uma doença”. Dependendo da doença, a dor é profunda. Pode estar curada mas nunca se sabe se voltará, ou se voltar, como você irá lidar. Qual o significado de seu pseudônimo?

Nossa! Eu não sabia disso e parece a palindromia se encaixa bem! O pseudônimo vem do conto ‘O Cobrador’, do Rubem Fonseca. A personagem é uma Ana, assim como eu e seu nome é um palíndromo – palavra ou frase que se escrita ao contrário é exatamente igual, quando ela conhece o Cobrador ele a apelida de Palindrômica. Por identificação na época me apropriei do nome, que fez o maior sentido pra mim desde que li, já que a Ana do conto tem uma empatia súbita com o Cobrador, que é um cidadão com raiva de todos os abusos que sofreu durante toda sua vida pelas pessoas e pelo governo, decidindo assim cobrá-las, usando de violência aleatória, principalmente com as pessoas que possuem poder. Ela, que é uma das pessoas que ele provavelmente mataria, surte um efeito contrário nele. Crescidos em realidades opostas, eles simplesmente se entendem.

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  • De todas as suas artes, há muitos tons de cores quentes pela paleta. Você sente uma ligação mais forte com estes tons?

Sim, sinto! O tom quente tem muito do que sou e de como vejo as coisas, além de achar graça na ironia de que as cores mais quentes são as que tem uma temperatura mais baixa do que as próprias cores frias. O que mais uma vez, acho que cabe bem pra produção atual e no meu próprio jeito de lidar com as coisas: fogo no rabo e vendo graça em tudo!

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  • Como você entrou na arte e como ela te ajudou a expressar tudo o que sente?

Não sei quando entrei, a pintura sempre fez parte da minha vida. Ela é pra mim o exercício de meditação melhor praticado, é o momento em que observo as coisas como são, me impressiona muito que a ‘sensação’ de pintura sempre foi a mesma desde que eu tinha 10 anos e pintava coisas sugeridas pelo programa Art Attack da Disney. Ela é uma necessidade e eu não me responsabilizo pelo que ela expressa!

Espero que tenha gostado! ♥

Quem será a próxima? 😉

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2 Comment

  1. Muito bom seu texto. especificamente com aquarelas, eu gosto de testar o uso do Sal, ele produz efeitos muito interessantes.

  2. nossa, já estou apaixonada por esse trabalho de imagens de mulheres, muito maravilhoso!! e bem feito!!

    http://www.tofucolorido.com.br
    Lívia Alli postado recentemente…diário de viagem: dresden.My Profile

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